segunda-feira, 22 de agosto de 2011

A história do homem que não sabia crescer

Faço algo para não te ouvir dizer
Que não fiz nada,
Pois nesta mescla anunciada,
Que é a necessidade de crescer,
Eu cheguei mais uma vez atrasado,
Adormeci fiquei para trás,
Não compreendi, não fui capaz
De percorrer aquilo que me foi desenhado.
Agora faço por fazer,
Para não me lembrar do que não quis
E sinto a vida a palpitar-me por um triz,
Como um corpo pronto a ceder,
E não tenho onde por a culpa
Senão no vazio que eu próprio cavei,
Esse é o pior mal eu sei,
O meu mundo visto numa lupa
Abre todas as feridas de que fugi.
Todas as estradas deixadas a meio,
A história do belo que se tornou feio,
Por ter medo de tudo inclusive de si,
Chegou-me quando já não podia partir.
Nem cedo demais para mudar,
Nem tarde demais para me contentar,
Fui então obrigado a fugir,
E é aí que te escrevo vida adulta,
Estou pronto para voltar ao início,
Ou para o mundo me internar num hospício,
Atormentado pela pressa e a culpa
Da dicotomia entre o morrer e crescer,
A velha história do precipício.
Estou pronto para voltar ao início…
Mas disso já ninguém quer saber.

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Porque sim

Dez mil pessoas estão na rua,
Para dizerem que estão vivas,
E nenhuma delas será minha ou tua,
Ninguém quer saber de tais divisas,
Há quem queira tanto saber tudo,
E tenha tanto que ser alguém,
Que não possa sequer ter usufruto,
De um tempo que não é de ninguém
Não me digas mais que não,
Estou farto de querer saber porquê,
Não há qualquer razão,
Não há porque não o fazer.
Há tanto para sentires como teu,
Tantas formas diferentes de viver,
Nunca me vou fartar de olhar para o céu,
Ou de ter o prazer de me desdizer
Suponho que também possa ser divertido,
Temos tempo para vencer,
Não vou regrar os meus sentidos,
Amanhã posso até morrer.
Não vou deixar de dizer sim,
Só porque não somos iguais,
Tudo na vida tem um fim,
E nós podemos ser sem mais,
Do que aquilo que fazem de nós,
Deixemos este impasse mordaz,
Podemos tentar não acabar sós,
Hoje venho em paz…

Então não me deixes esmorecer,
Estamos em pleno mês de Junho,
Perante um mar que nos sobeja.

Por isso não venhas ver o sol nascer,
De caçadeira em punho,
É que eu só trouxe uma cerveja.

terça-feira, 17 de maio de 2011

Filhos do Desassossego

Os putos passam com garrafas na mão,
Vão até à hipérbole dos sentidos,
Gastar-se um pouco e quem saber perder a razão,
Até se sentirem por demais destemidos,
Tocam guitarra e desatam aos gritos,
Soltam amarras e perdem-se dias,
Ganham-se noites e criam-se mitos,
Exploram seus corpos em liturgia
Perante uma pintura inusitada,
De uma cidade completamente crua
Na sua sórdida fachada,
Que de Lisboa se diz estar nua.
A decadência é um perfume
Munida de um romantismo inegável,
Como que a agitação de um sórdido lume
A uma viagem irrecusável
Até onde os putos se querem desgraçar,
Não têm dinheiro não têm emprego,
"São só putos a delirar",
Mas são eternos, são os filhos do desassossego.

domingo, 27 de março de 2011

Longe

Nada me pertence,
Não quero conhecer essa sensação,
Nada tem interesse,
Não creio em tal vocação,
Eu não quero ser,
Só quero estar,
Estou farto de perder,
O que não quero ganhar,
Porque tudo o que eu faço,
Não me reconhece a mim.
Onde é o meu espaço,
Talvez no princípio do fim,
Das noites sem sono,
Onde o corpo dormente,
Afaga num silêncio sem dono,
Os livros da mente.
Eu não estou em casa…
Estou tão longe de casa.

Foge do meu mundo,
Deixa-me querer,
Ficar num sono profundo,
Até anoitecer.
Prometo ser só eu,
Um dia sem leis,
Um juízo sem réu
E um reino sem reis.
Tenho os olhos cansados,
Pela luz do sol,
E os ossos esmagados,
Das epopeias no lençol,
Portas onde entrei,
Aquele que eu não sou,
Por onde errei,
O miúdo que gritou.
Eu não estou em casa…
Estou tão longe em casa.

sexta-feira, 18 de março de 2011

Chão

Os quadros na parede,
Os filmes repetidos vezes sem conta,
Fazem desta casa uma montra,
Daquilo com a que a vida se parece,
Mas não.
O dia tornou-se demasiado cinzento,
Ele já nem sente o porquê do poema,
Desperdiça-se no atingir do tema,
E destrói cada fracassado fragmento,
À mão.
O silêncio grita-lhe de forma insuportável,
Numa inerte hostilidade,
Que lhe destorce a capacidade,
Daquilo que é saciável,
À Razão.
Procura no corpo dor,
Abrindo a cicatriz que o remedia,
No diálogo com a esquizofrenia,
Inebria a alma na cor,
Da loção.
E quando o sono chegar,
Já a dormência o levou daqui,
E cada vez está mais longe de si,
Estendido algures a respirar,
No chão.

quarta-feira, 2 de março de 2011

Próxima vez

Os dias ficam curtos
Para o que queria dizer,
Para o que poderia fazer,
Perdi-me nos tempos mudos
Da indefinição de viver.
Eu sei que mal tentei
Que consigo ser mais,
Nem sequer me mostrei,
Perdi-me nesse vaivém
De identidades espácio-temporais
Dos dias que eram longos.
Dos mundos que eram nossos,
Nos tempos que erigimos troços,
E os lugares onde fomos,
É tudo o que nós somos.
É estranho ficar assim,
Passar por um sorriso meu,
E aperceber-me do fim,
Sentir-me estranho em mim,
Perder-me no que sou eu.
Se houver próxima vez,
Porque não sou assim tão pouco,
Talvez não diga mais talvez,
E me deixe levar pela embriaguez,
De um acto que se quer louco.

Se houver próxima vez,
Vou desdizer a perfeição
Essa curiosa altivez
Com que munimos a imaginação,
De tudo o que não somos,
E queremos o que fomos,
Nos dias em que estamos
A dor dos nossos porquês,
Longe do que sonhamos
Se houver próxima vez.

sábado, 19 de fevereiro de 2011

O Passageiro

Consigo ver o mundo despido
De qualquer sinfonia de razão,
Num tempo que eu decido
Abraçando os delírios da imaginação,
Estou de passagem pelo escuro
Onde liberto o prenúncio do impensável,
Pelos poros de um caótico futuro
A alforria de ser um Homem intragável
No conforto da minha mente,
É algo comum a qualquer mortal.
Que em conveniência se deixa mergulhar pela gente
E sua moral.

As fábulas de inverno estão de passagem,
Como condenando os tempos mortos á extinção,
Abraçando as múltiplas pulsões desta viagem,
Como que despindo o mundo de razão
As palavras do último passageiro,
Estão guardadas no fundo de cada dia
Dos que se assomam em pleno Fevereiro,
De uma estranha palpitação sombria,
Enquanto se sentam calmamente,
Nos olhares untuosos do percurso,
Enquanto incomodamente ascendem ao Olimpo da mente
Tomando-o a pulso.

O som desaparece, a música encerra,
Já não sou o teu passageiro.
Enquanto escuto a chuva, ao por o pé em terra,
Mato mais um devaneio.
Num arejo de pasmada inquietação,
O Poeta está de passagem pela rebelião.